segunda-feira, 18 de junho de 2012

Bicicletas reclinadas...

As bicicletas de que mais gosto são as reclinadas: são mais confortáveis, mais aerodinâmicas e permitem fazer grandes distâncias com pouco mal estar (pulsos, ombros, pescoço, etc.).

As bicicletas reclinadas são imensamente variadas e praticamente impossíveis de classificar. 

Pelas características distintivas do quadro, do comportamento, do peso e dos fins a que se destinam são normalmente "classificadas" em dois tipos: com uma distância entre eixos curta (short wheelbase, ou SWB) e com uma grande distância entre eixos (long wheelbase, ou LWB).


Um exemplo de uma bicicleta reclinada LWB, a Sun EZ

As reclinadas LWB são normalmente mais confortáveis do que as SWB (e incomparavelmente mais confortáveis do que qualquer bicicleta comum) e mais fáceis de aprender a "conduzir", porque a maior distância entre as rodas as torna mais estáveis e permite uma maior absorção das irregularidades do terreno e porque têm os pedais a um nível inferior ao do assento e bastante mais próximo do solo.

 

As reclinadas SWB têm uma maior curva de aprendizagem mais longa, são menos práticas e mais nervosas mas compensam com uma velocidade mais elevada, quer nas subidas, quer em terreno plano. Nas descidas são ambas, por via de regra, muito mais rápidas do que uma bicicleta comum.

Um exemplo de uma bicicleta reclinada SWB, a Baccheta Strada

Qualquer tipo de bicicleta reclinada permite, pela sua posição, desfrutar amplamente a paisagem e, consequentemente o passeio (ou corrida): a posição é ergonómica - a cabeça está direita em vez de ir a fitar a roda da frente da própria bicicleta ou um ou dois metros mais à frente; o peso do corpo é distribuído por todo o assento - não se limita a sobrecarregar um triângulo de pouco mais de 15 cm2; e os braços apenas guiam - não suportam o peso de qualquer parte do corpo.

Apesar de os músculos utilizados numa bicicleta reclinada não serem os mesmos que utilizamos nas bicicletas mais comuns (de quadro em diamante) e de, por isso mesmo, a transição de uma bicicleta comum para uma reclinada não implicar geralmente um aumento da velocidade média do ciclista, a mudança de uma bicicleta para outra é como aprender a andar de bicicleta outra vez! Só que é muito mais divertido!


Na verdade eu - que nunca tinha ultrapassado a barreira dos 100km numa única volta, em qualquer tipo de bicicleta - fiz em Janeiro de 2012 uma prova Audace com a Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta (FPCUB), com cerca de 128km de percurso, e consegui chegar ao fim sem cansaço de maior e, mais importante, sem qualquer tipo de dor nos pulsos, pescoço, ombros, ou outras partes do corpo geralmente massacradas com o selim. Em termos de tempo, fiquei a meio da tabela.

 A minha bicicleta está lá atrás, por detrás dos dois ciclistas.

De partida, no mesmo (único) posto de controlo.


Nesta altura, a bicicleta tinha rodas de 26" (rodas típicas de montanha, ou BTT), uma bagageira, levei muita tralha comigo e o conjunto pesava cerca de 19,5kg, com as ferramentas e tudo!

Essa bicicleta reclinada, que tenho estado a (tentar) desenvolver, pode ser considerada como uma SWB e, posso atestar, é possível rolar com estas bicicletas, com um esforço moderado (~150-160W), a cerca de 33km/h em terreno plano. Em sprint só me foi possível rodar a 46km/h, mas ainda tenho de fazer muitos quilómetros até ter a musculatura toda desenvolvida.

Confesso que me divirto ao ultrapassar alguns ciclistas que vão nas suas bicicletas de 9kg e que não conseguem acompanhar o ritmo... Se eles soubessem que não é do ciclista, mas da bicicleta!

Entretanto, aquela bicicleta já evoluiu e está agora na sua versão 2.1, mais leve, mais aerodinâmica e, quanto a mim, mais bonita.

 Com rodas de estrada (700C), mas ainda com a transmissão de BTT, 
para permitir uma maior amplitude de mudanças
(ainda me falta força nos músculos certos)

 Um exemplo da posição em pleno andamento.

O peso não está tão baixo como eu gostaria (pesa 16,3 kg com os pedais), mas ainda é um protótipo e tem muitas peças que não serão as definitivas e que se destinam a aperfeiçoar o conceito e as soluções (work in progress).

Com todos os acessórios montados (apoio para luz à frente, luzes à frente e atrás, suporte de garrafa, gps e ciclocomputador e seus apoios, protecção de corrente quase integral, espelho retrovisor, e um saco atrás do banco), não está particularmente pesada, com cerca de 17,2 kg.

Se pensarmos bem, para uma primeira experiência de bicicleta reclinada sem qualquer peça em carbono, ou alumínio (à excepção do garfo da roda da frente, que é em alumínio) não está excessivamente pesada: a Nazca Gaucho, que é uma bicicleta conceituada, pesa cerca de 15,5 kg em ordem de marcha. Ou seja, pesa menos 0,8kg do que a minha.

Do meu conhecimento, em Lisboa, a Cenas a Pedal é a única empresa que aluga uma bicicleta reclinada e que as tem à venda. Mas podem sempre procurar encontrar outras empresas e experimentar outras bicicletas reclinadas, algo que os mais versados nas bicicletas reclinadas sempre aconselham nos seus blogs e vídeos.

Deixo a provocação: assim que começarem a andar de reclinada não vão voltar atrás (once you go 'bent you'll never go back). Eu já não penso em comprar uma bicicleta de estrada.

7 comentários:

  1. E quando cais? Não estás muito desamparado?

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  2. Se pensares bem, numa reclinada a queda será sempre para o lado e nunca (ou quase nunca) com a cabeça e o corpo à frente (ou antes) do resto.
    Se chocares de frente contra alguma coisa é mais segura a reclinada do que a comum porque os pés amortecem parte do impacto.
    Da minha experiência (já caí duas vezes com a bicicleta: 1 com a primeira versão e uma com versão 2.1) as quedas apenas ocorrem quando estava a parar ou a arrancar e sempre por causa dos pedais de encaixe.
    Mas isso também acontece nas bicicletas comuns. Como um amigo meu me avisou quando comprei os primeiros pedais de encaixe: "os pedais de encaixe vêm sempre com um kit de três quedas"!
    Ainda tenho uma de sobra!

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  3. Passei já muito tempo a pesquisar na net tudo o que existe sobre reclinadas e tenho um conhecimento aprofundado das "recumbent", quer na Europa , quer nos States. Estive quase a tentar-me pela compra de uma; um capricho; uma extravagãncia, a juntar às minhas outras 4 bicicletas. Isto antes da crise. Passada essa fase, após muita reflexão, e na minha qualidade de ciclista diário e militante começo a achar que estas sedutoras bicicletas tem alguns contras que são insanáveis.Com efeito:- A maior parte exige manipulações do comprimento da corrente fastidiosas e são propensar a sujar-nos de óleo pela maior exposição da corrente. Essa mesma corrente está numa posição muito exposta e agressiva de objetos e pessoas envolventes. São dificilmente transportáveis, também por causa das condicionantes da corrente. É sobretudo por nos deslocarmos numa situação que pode ser mais baixa do que a dos vidros dos automóveis ,que a segurança está em causa porque nos tornamo invisíveis para muitos utentes (peões e veículos) da via pública e nós próprios perdemos alcance de visão. Atenção portanto.

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    1. Obrigado pela leitura e pelo comentário.
      Concordo, naturalmente, que estas "recumbent bicycles" são sedutoras.
      Sem crer que o consiga mudar de opinião, não deixo de notar o seguinte: identificou como contras insanáveis (1) a manipulação (fastidiosa) do comprimento da corrente, (2)a maior exposição da corrente, (3) a localização agressiva da corrente (presumo que se refira essencialmente ao pedaleiro) para pessoas e objectos envolventes, (4) difícil transportabilidade e (5) escassa visibilidade.
      Julgo que os contras identificados em (1) e (2) são perfeitamente ultrapassáveis, pois há muitos modelos que não têm um "adjustable boom" e, portanto, não admitem que o pedaleiro se desloque para a frente e para trás; nestes modelos é o assento que se desloca para a frente e para trás. Em relação à sujidade da corrente, existem as protecções de corrente (como a que o Bruno Santos da Cenas a Pedal colocou na minha) que protegem a corrente quase integralmente. Posso garantir que não sujo a roupa ou as pernas na corrente da minha bicicleta.
      Relativamente ao contra indicado em (3), essa exposição ocorrerá em modelos SWB e, eventualmente, em modelos CLWB, mas nunca nos modelos LWB, em que tipicamente, a pedaleira se situa entre as rodas e não por cima ou à frente da roda da frente.
      Em relação à difícil transportabilidade (referida como o 4.º contra), julgo que ela ocorre essencialmente em modelos muito compridos, como as LWB. As bicicletas SWB são transportáveis em cima das barras do tejadilho em suportes idênticos aos das restantes bicicletas (a minha é transportada num apoio de bicicletas da Thule, perfeitamente standard).
      Em relação à escassa visibilidade [(5)], designadamente, por o ciclista se situar abaixo do nível das janelas dos automóveis, essa não é a realidade de todas as bicicletas reclinadas. No caso da minha bicicleta a minha linha de visão fica exactamente à mesma altura, senão até um pouco acima da cabeça dos condutores dos automóveis comuns (VW Golf, por exemplo).
      Assumidamente, o ciclista vai numa posição menos alta do que numa bicicleta normal, mas não é propriamente invisível.
      A minha experiência é que sou até visível demais (com inúmeras expressões de apreço e pessoas a esticar o polegar para cima e a apitar, quer passem por mim na mesma faixa, quer venham no sentido contrário).
      Por último refiro, ainda, que há a possibilidade de adaptar bandeiras (semelhantes às dos atrelados para crianças) específicas para bicicletas reclinadas.
      Novamente lhe agradeço a leitura e o comentário, em particular a chamada de atenção para o cuidado que há a ter em termos de visibilidade.

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    2. Desculpe a pergunta, mas como não é comum encontrar lusófonos que sejam profundos conhecedores das recumbent, fiquei interessado. Referia-se à dificuldade de utilização no dia-a-dia com as reclinadas?
      Quando experimentou as reclinadas foi em ambiente exclusivamente urbano?
      A dificuldade de transporte a que se referia é aquela dos transportes públicos e em casa (eventualmente subindo escadas com a bicicleta pela mão)?
      Obrigado

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  4. A vantagem da reclinada, dobrável:

    http://downtube.com/Convert_Folding_Bike_Into_Recumbent_Folding_Bike/

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  5. Sim!
    Essa bicicleta foi adaptada com base num kit vendido pela Cruz Bikes!
    Talvez valha a pena procurares!

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